domingo, 26 de janeiro de 2020

Semana 4 - Leica M6 - Voigtlander Ultron 28mm F1.9

Leica M6 - Voigtlander Ultron 28mm F1.9 


Kentmere K400 - Rodinal 1:50


Das nuvens

Há muitas coisas na vida que são como andar de bicicleta - nunca esquecem. Para esta semana tinha pensado num tema completamente diferente mas a meio da tarde de quarta-feira deparei com um céu com nuvens particularmente bonitas. Tinha a máquina carregada com filme a preto e branco e veio-me à cabeça o uso de filtros para melhorar as fotografias do céu (há mais de trinta anos que não me lembrava de tal coisa). Ainda consegui comprar um filtro cor-de-laranja (os meus agradecimentos ao Pedro Viterbo) e segui para a beira mar para assistir a um dos pores-do-sol mais espectaculares de que me lembro. 

Nessa noite revelei o filme e digitalizei-o. O digitalizador não é grande coisa e nota-se...
A imagem abaixo - Study of Clouds, de John Constable - foi-me sugerida por um episódio da série policial Inspector Lewis, And the Moonbeams Kissed the Sea, temporada 2 episódio 1, um excelente filme por si só.





No FlickR



sábado, 18 de janeiro de 2020

Semana 3 - Mamiya 645 1000S - Sekor C 210mm F 4


Mamiya 645 1000S - Sekor C 210mm F 4

Kodak Portra 160, exp 2008

Da revelação


"Algumas destas modificações são sublimes. À beleza, tal como a concebeu um cérebro humano, uma época, uma forma particular de sociedade, elas juntam a beleza involuntária que lhes vem dos acidentes da História e dos efeitos naturais do tempo. Estátuas tão bem quebradas que de cada fragmento nasce uma obra nova, perfeita pela própria segmentação: um pé descalço inesquecivelmente pousado sobre uma laje, uma mão pura, um joelho dobrado contendo em si toda a velocidade da corrida, um torso que nenhum rosto nos impede de amar, um seio ou um sexo em que reconhecemos melhor que nunca a forma de flor ou de fruto, um perfil onde a beleza subsiste numa total ausência de história humana ou divina." Marguerite Yourcenar, "O Tempo, Esse Grande Escultor"

Yourcenar fala da vida das estátuas a partir do momento em que saem do atelier do escultor. Eu gosto de pensar no processo inverso, a longa e lenta acção do Tempo que leva a matéria áspera até à porta do museu. Há aqui, e no texto de Yourcenar a crença implícita numa beleza independente dos olhos que a vêem. A minha formação matemática permite-me encarar isso com a maior naturalidade. Qualquer matemático jurará que o Pi existia antes do Homem e existirá depois dele... Assunto a que voltarei, de certeza.

Em particular, a fotografia que me interessa é a que mostra a beleza escondida nas coisas e nas pessoas, a beleza involuntária do Mundo. O fotógrafo é um sujeito que revela.





sábado, 11 de janeiro de 2020

Semana 2 - Pontiac Lynx

Pontiac Lynx

Verichrome Pan expirado em 1980

O Instante Decisivo

“Photographier: c'est dans un même instant et en une fraction de seconde reconnaître un fait et l'organisation rigoureuse de formes perçues visuellement qui expriment et signifient ce fait.” Henri Cartier-Bresson


A ideia de Instante Decisivo é normalmente entendida tendo em conta o resultado. A fotografia em que vemos que o fotógrafo estava no lugar certo no momento certo. Do ponto de vista do espectador mais ou menos avisado é isso que conta. 
Interessa-me mais o ponto de vista do fotógrafo. Interessa-me o instante em que pelo visor reconheço uma imagem  interessante - bela - e primo o disparador. Claro que primo o disparador para obter um resultado. Fotografar sem rolo (ou sem cartão) pode sair mais barato, mas não é a mesma coisa... Mas o momento em que penso "É isto" e carrego no botãozinho já ninguém mo tira. Uma das minhas melhores recordações fotográficas é a de uma representação de uma peça adaptada de "O Principezinho" pelo TUP. Tinha carregado mal a máquina - uma Zeiss SL 706 - e o rolo saiu totalmente em branco. Ainda agora acho que foram das melhores fotografias que alguma vez tirei...
É por isso que não faz mal ir fotografar com uma máquina esquisita (com um visor fabuloso) e rolo expirado há quarenta anos... Os 16 cliques saíram-me muito bem...
Não se esqueçam de ir ver a Exposição na Alfandega do Porto!

No FlickR



domingo, 5 de janeiro de 2020

Semana 1 - Sony DSC R1




Sony DSC R1

Pessoas e fantasmas

Passei algum tempo na Praça dos Leões a ver, e a fotografar, pessoas a circular entre fotografias de pessoas. As fotografias são francamente boas, mostram pessoas diferentemente normais, diferentemente felizes ou infelizes, diferentemente bonitas. As pessoas que passam, muitos por cento turistas, vêm também de tudo o que é sítio. Mas não se vêem. Numas duas ou três horas que lá passei, em três dias diferentes, só uma vez vi alguém a visitar a exposição, detendo-se alguns segundos perante cada imagem. Uma família de quatro pessoas. Vi algumas poucas pessoas deterem-se em frente a uma ou outra imagem. A maior parte ignorava totalmente a exposição.
De certeza muitas dessas pessoas foram aos museus, talvez até a galerias ver fotografias muito piores. Não tenho grande explicação para isto. Suponho que seja uma questão de estatuto. Essas pessoas estão na cidade na sua qualidade de turistas. Portanto turistam. Vêem o que os guias, de carne e osso ou de papel, lhes dizem para ver. Provavelmente na terra deles passeiam, e vêem o que há para ver.


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