domingo, 29 de março de 2020

Semana 13 - Sony A7 + Nikkor 28-200mm

Sony A7 + Nikkor 28-200mm 











Quase-quase-quase monocromias

A Persian rug is perfectly imperfect, and precisely imprecise.

Traditional, hand-made Persian rugs have intentional flaws because the muslim artists feel that only Allah is perfect and has the right to create perfectly. There is a certain ironic arrogance here in that the artist assumes that the intentional imperfect stitch is what makes the rug imperfect. (um pouco de teologia aqui)

Recently my work with color has led me, in spite of myself, to search little by little, with some assistance (from the observer, from the translator), for the realization of matter, and I have decided to end the battle. My paintings are now invisible and I would like to show them in a clear and positive manner, in my next Parisian exhibition at Iris Clert's  - Ives Klein

Quando acabei de escrever o post da semana passada a imagem que me veio à cabeça para encerrar as parcas reflexões foi a de uma das Monocromias de Ives Klein. Depois achei que a inspiração de Klein podia servir por si só para esta semana e resolvi reservá-la. Fui dar uma volta pela vizinhança -- não sei se é permitido levar a máquina nos passeios higiénicos -- e fotografei. O resultados -- quase-monocromias -- não me desagradam totalmente. As falhas, montes delas, que têm não são, juro!, intencionais!

Entretanto fartei-me de conversar, de procurar, de aprender coisas sobre o Klein, de relembrar with little help from my friend  um filme visualmente belíssimo -- Gabbeh --, de evocar outras gentes e outros tempos. Isto do blog foi muito boa ideia!

Traces - Yves Klein



segunda-feira, 23 de março de 2020

Semana 12 - Sony A7 II + Sigma 17-35 Asph

Sony A7 II + Sigma 17-35 Asph








"Quando me ponho às vezes a considerar as diversas agitações dos homens, e os perigos e trabalhos a que eles se expõem, na corte, na guerra, donde nascem tantas querelas, paixões, cometimentos ousados e muitas vezes nocivos, etc., descubro que toda a miséria dos homens vem duma só coisa, que é não saberem permanecer em repouso, num quarto. Um homem que tenha o bastante para viver, se fosse capaz de ficar em sua casa com prazer não sairia para ir viajar por mar ou pôr cerco a uma praça-forte. Ninguém compraria tão caro um posto no exército se não achasse insuportável deixar-se estar quieto na cidade; e quem procura a convivência e a diversão dos jogos é porque é incapaz de ficar, em casa, com prazer."  Pascal - Pensamentos.


QUE viaje à roda do seu quarto quem está à beira dos Alpes, de Inverno, em Turim, que é quase tão frio como Sampetersburgo — entende-se. Mas com este clima, com este ar que Deus nos deu, onde a laranjeira cresce na horta, e o mato é de murta, o próprio Xavier de Maistre, que aqui escrevesse, ao menos ia até o quintal."  Almeida Garrett, Viagens na Minha Terra.


Estava tudo a ficar tão bem e vem o diabo do romântico estragar tudo!
Bem, cumpri (com alguns ajustes perto da meia-noite e resultados assim-assim) o desafio de uma fotografia por dia, dentro de casa. A Sony vai aparecer mais - não há onde mandar revelar rolos a cores. Desta vez escolhi uma grande angular mesmo muito grande que dá pontos de vistas inesperados e faz aparecer toda a sujidade que possa haver na máquina -- não há onde mandar limpar os sensores --, paciência!

E pronto. Hoje, metaforicamente, é quase só enlatados! 

Andy Warhol - Campbell Soup Cans


No FlickR



terça-feira, 17 de março de 2020

Semana 11 - Sony A7 II + Sekor C 80mm F1.9

Sony A7 II + Sekor C 80mm F1.9







Diário da peste


We had no such thing as printed newspapers in those days to spread rumours and reports of things, and to improve them by the invention of men, as I have lived to see practised since. But such things as these were gathered from the letters of merchants and others who corresponded abroad, and from them was handed about by word of mouth only; so that things did not spread instantly over the whole nation, as they do now. But it seems that the Government had a true account of it, and several councils were held about ways to prevent its coming over; but all was kept very private. Hence it was that this rumour died off again, and people began to forget it as a thing we were very little concerned in, and that we hoped was not true;
Daniel Defoe (1660-1731) A Journal of the Plague Year

Não vou tecer considerações sobre a situação presente, mas as palavras de Daniel "Robinson Crusoe" Defoe são saborosas demais para não as usar. O a-propósito disto é que continuam tempos difíceis para fotógrafos hebdomadários. 
O projecto 52 semanas, 52 Equipamentos consiste, acho que ainda não tinha explicado bem, em publicar a cada semana 7 fotografias tiradas nessa semana sem repetir combinações corpo/objectiva. Ora sem sair de casa não fica fácil. Mas para já vou a jogo e subo a parada. Na próxima semana será uma fotografia por dia, tiradas de dentro de casa. 
Nesta semana fica uma série de fotografias repescadas - não tencionava utilizá-las - tiradas com o corpo Sony A7 e a objectiva normal da Mamiya 645. Um prazer!



Peter Brueghel - O Triunfo da Morte

No FickR



segunda-feira, 9 de março de 2020

Semana 10 - Sony A7 II + Sony FE 28-70 F 3.5-5.6

Sony A7 II + Sony FE 28-70 F 3.5-5.6 











Photos from a room

Na Semana 10 fui atacado por um vírus. Um vírus modesto e anónimo mas que me forçou a quarentena voluntária (abafa-te,...). A coisa tem os seus encantos mas é má para a fotografia-com-semana-marcada. Fui salvo por um post do Renato Roque que no seu excelentíssimo blog Uma espécie de blog a partir da fotografia me deu a inspiração para as sete desta semana. 

O blog do Renato e o site em que se insere têm sempre tesouros de imagem e de reflexão sobre a prática fotográfica. A quem se interessar por Matemática e Estatística recomendo veementemente a leitura do que houver sobre o projecto Espelhos Matriciais. É uma coisa que prometo a mim mesmo fazer, qual Frei Tomás.
Então diz o Renato no seu blog,

Desde sempre, senti o acto de fotografar como uma espécie de máscara, um disfarce que me escondia, que me protegia e que me permitia movimentar entre as pessoas, sem que soubessem quem eu era. De facto, atrevo-me a ir a sítios e a fazer coisas, que seriam impensáveis sem a câmara a proteger-me. Esta minha relação-fétiche com acto de fotografar e com a câmara não elimina o gosto pela conversa com os fotografados, quando a evolução da situação desenvolve um ambiente que o favorece.

E realmente, até há bem pouco tempo, qualquer câmara portátil, era empunhada pelo fotógrafo e colocada à frente da cara, escondendo-a, e impossibilitando ao fotografado olhar nos olhos o fotógrafo. Talvez por isso, invoco este argumento pela primeira vez, eu continue a preferir fotografar com máquinas "tradicionais", que me obrigam a olhar a cena pelo visor óptico, em vez de usar telemóveis ou outros equipamentos chamados mobile".

Gostaria de ter feito as minhas imagens com um equipamento mais pitoresco, mas é a vida...

Renato Roque - Máscara
No FlickR





terça-feira, 3 de março de 2020

Semana 9 - Sony A7 II + Enna MC Revuenon 24mm F4


Isso também eu!

Parte 1

Boa parte das críticas à escultura (instalação?) A Linha de Mar, de Pedro Cabrita Reis, são variantes do Isso também eu. São umas vigas ao alto. Lá isso são. E, como qualquer objecto de arte, levam quem estiver disposto a ver (ou ouvir) por caminhos inesperados, sempre diferentes. Em particular este objecto guia o olhar e enquadra a paisagem "natural" 
que deixa de ser a mesma, não pela presença da obra mas para além dela. A Linha do Mar é assim uma espécie de instrumento óptico, um dispositivo que permite ver melhor o que já lá estava.

Parte 2

Pensar-se-ia que as sete fotografias da semana visam ilustrar a Parte 1. Por um lado, sim, mas por outro ilustram um aspecto diferente. As fotografias não têm nada de "natural". Resultam do uso de uma lente muito mais aberta que o olhar humano e de uma escolha cuidada da posição da câmara e do instante do disparo. Temos portanto imagens que propõem uma visão de uma obra que propõe uma visão da "natureza". Hei-de voltar à relação da fotografia com a escultura, assunto que há muito tempo me fascina. 

Mark Rothko - Walls of Light





segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Semana 8 - Ifbaflex - Ifbagon 50mm 1.8



Ifbaflex - Ifbagon 50mm 1.8

Fomapan 100 revelado em Rodinal 1:50







Arquitecturas

Quando quero testar um equipamento fotográfico vou, com raras excepções, fotografar a Casa de Chá da Boa Nova. Há uma infinita variedade de luz, sombra, céu e mar, de forma a que é sempre um prazer vê-la metida num rectângulo. Acho que isso prova que a Casa de Chá é uma bela peça de escultura. Diria que é uma peça de escultura visitável, não foram os preços exorbitantes e os horários esquisitos que lá se praticam. Já não é uma casa de chá, é um restaurante para coleccionadores de chefs. 
    Se bem me lembro de quando se podia ir lá só tomar um café, o interior bate certo com o exterior, é um ambiente tranquilo, belo sem ser impositivo, perfeito para se estar. Acho que isso prova que a Casa de Chá é uma bela peça de arquitectura.
   Um edifício ser uma bela peça de escultura não implica que seja uma bela peça de arquitectura, nem vice-versa... hei-de voltar a este tema, de certeza.





domingo, 16 de fevereiro de 2020

Semana 7 - Sony RX100 mk3

Sony RX 100 mk3

Small is beautiful

Como é óbvio por este próprio projecto gosto de alguma dificuldade no acto de fotografar e na sua preparação. Gosto de pegar numa máquina que não conheço, perceber como funciona, eventualmente escolher objectiva e filme adequado a uma ideia do que vou fotografar. Gosto de ter de ponderar se carrego ou não no botão, por escassez de imagens disponíveis no filme ou de dinheiro na carteira. Não há para isso como uma câmara 6x9 das antigas...
Mas, se tivesse de escolher uma única das minhas máquinas, não teria dúvidas. A pequenina, que vai para toda a parte e faz tudo bem quase sozinha. É que obter boas imagens tem a sua importância e as da RX 100 só ficam atrás das de câmaras muito menos manejáveis quando muito bem manejadas.



No Flicker












domingo, 9 de fevereiro de 2020

Semana 6 - Koni-Omega Rapid - Hexanon 90mm F3.5

Koni-Omega Rapid - Hexanon 90mm F3.5

Ilford HP5 revelado em Rodinal







As Quatro Estações

Há muito tempo que não entrava na Estação de S. Bento. Lembro-me de lá ir em miúdo com o meu pai, só para ver os comboios, e de haver uma maquete de uma locomotiva onde se metia uma moeda para ver as rodas a andar durante uns poucos minutos. O fumo era um tufo de algodão em rama. Agora os comboios não são tão bonitos e a maquete ainda existe, mas sem algodão em rama. Seja como for, as estações e os comboios continuam a ser lugares muitíssimo fotografáveis (e filmaveis, e pintáveis)! 
  
Já agora, as Quatro Estações são Campanhã, São Bento, Santa Apolónia e Rossio, por esta ordem,como bem sabe quem tenha jogado Monopólio no tempo dos escudos e do arroz de quinze. 


Monet - Imagens da Gare St Lazare

No Flicker





domingo, 2 de fevereiro de 2020

Semana 5 - Nikon D7200 - Micro-Nikkor 60mm F2.8

Nikon D7200 - Micro-Nikkor 60mm F2.8









Magnólias


Mês das magnólias:
eis que todos os caminhos
demoram mais tempo.

Há alguns anos andei a brincar aos haiku. Deixei-me disso passado pouco tempo porque acabou por me parecer um pouco "fácil demais". Isto é, é fácil demais obter poemas decentes e incrivelmente difícil fazê-los realmente bons. Lidos agora, os meus ensaios da altura parecem-me fraquitos, mas há alguns poucos de que continuo a gostar, entre os quais os inspirados pelas magnólias.
Há anos que espero, até com alguma impaciência, o fim de Janeiro para fazer a ronda, normalmente com a máquina a fazer peso, pelas capelinhas: passeio das Cardosas, início da Avenida da Boavista, algumas casas em Gomes da Costa e, a melhor de todas, o adro da Igreja da Senhora do Ó em Águas Santas. Passei lá há quinze dias e estavam atrasadas. Devem estar a ficar no auge. Vale a pena ir lá de propósito.
As imagens abaixo são de duas grandes artistas e amigas, Imogen Cunningham e Frida Kahlo. 



No Flickr







domingo, 26 de janeiro de 2020

Semana 4 - Leica M6 - Voigtlander Ultron 28mm F1.9

Leica M6 - Voigtlander Ultron 28mm F1.9 


Kentmere K400 - Rodinal 1:50


Das nuvens

Há muitas coisas na vida que são como andar de bicicleta - nunca esquecem. Para esta semana tinha pensado num tema completamente diferente mas a meio da tarde de quarta-feira deparei com um céu com nuvens particularmente bonitas. Tinha a máquina carregada com filme a preto e branco e veio-me à cabeça o uso de filtros para melhorar as fotografias do céu (há mais de trinta anos que não me lembrava de tal coisa). Ainda consegui comprar um filtro cor-de-laranja (os meus agradecimentos ao Pedro Viterbo) e segui para a beira mar para assistir a um dos pores-do-sol mais espectaculares de que me lembro. 

Nessa noite revelei o filme e digitalizei-o. O digitalizador não é grande coisa e nota-se...
A imagem abaixo - Study of Clouds, de John Constable - foi-me sugerida por um episódio da série policial Inspector Lewis, And the Moonbeams Kissed the Sea, temporada 2 episódio 1, um excelente filme por si só.





No FlickR



sábado, 18 de janeiro de 2020

Semana 3 - Mamiya 645 1000S - Sekor C 210mm F 4


Mamiya 645 1000S - Sekor C 210mm F 4

Kodak Portra 160, exp 2008

Da revelação


"Algumas destas modificações são sublimes. À beleza, tal como a concebeu um cérebro humano, uma época, uma forma particular de sociedade, elas juntam a beleza involuntária que lhes vem dos acidentes da História e dos efeitos naturais do tempo. Estátuas tão bem quebradas que de cada fragmento nasce uma obra nova, perfeita pela própria segmentação: um pé descalço inesquecivelmente pousado sobre uma laje, uma mão pura, um joelho dobrado contendo em si toda a velocidade da corrida, um torso que nenhum rosto nos impede de amar, um seio ou um sexo em que reconhecemos melhor que nunca a forma de flor ou de fruto, um perfil onde a beleza subsiste numa total ausência de história humana ou divina." Marguerite Yourcenar, "O Tempo, Esse Grande Escultor"

Yourcenar fala da vida das estátuas a partir do momento em que saem do atelier do escultor. Eu gosto de pensar no processo inverso, a longa e lenta acção do Tempo que leva a matéria áspera até à porta do museu. Há aqui, e no texto de Yourcenar a crença implícita numa beleza independente dos olhos que a vêem. A minha formação matemática permite-me encarar isso com a maior naturalidade. Qualquer matemático jurará que o Pi existia antes do Homem e existirá depois dele... Assunto a que voltarei, de certeza.

Em particular, a fotografia que me interessa é a que mostra a beleza escondida nas coisas e nas pessoas, a beleza involuntária do Mundo. O fotógrafo é um sujeito que revela.





sábado, 11 de janeiro de 2020

Semana 2 - Pontiac Lynx

Pontiac Lynx

Verichrome Pan expirado em 1980

O Instante Decisivo

“Photographier: c'est dans un même instant et en une fraction de seconde reconnaître un fait et l'organisation rigoureuse de formes perçues visuellement qui expriment et signifient ce fait.” Henri Cartier-Bresson


A ideia de Instante Decisivo é normalmente entendida tendo em conta o resultado. A fotografia em que vemos que o fotógrafo estava no lugar certo no momento certo. Do ponto de vista do espectador mais ou menos avisado é isso que conta. 
Interessa-me mais o ponto de vista do fotógrafo. Interessa-me o instante em que pelo visor reconheço uma imagem  interessante - bela - e primo o disparador. Claro que primo o disparador para obter um resultado. Fotografar sem rolo (ou sem cartão) pode sair mais barato, mas não é a mesma coisa... Mas o momento em que penso "É isto" e carrego no botãozinho já ninguém mo tira. Uma das minhas melhores recordações fotográficas é a de uma representação de uma peça adaptada de "O Principezinho" pelo TUP. Tinha carregado mal a máquina - uma Zeiss SL 706 - e o rolo saiu totalmente em branco. Ainda agora acho que foram das melhores fotografias que alguma vez tirei...
É por isso que não faz mal ir fotografar com uma máquina esquisita (com um visor fabuloso) e rolo expirado há quarenta anos... Os 16 cliques saíram-me muito bem...
Não se esqueçam de ir ver a Exposição na Alfandega do Porto!

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domingo, 5 de janeiro de 2020

Semana 1 - Sony DSC R1




Sony DSC R1

Pessoas e fantasmas

Passei algum tempo na Praça dos Leões a ver, e a fotografar, pessoas a circular entre fotografias de pessoas. As fotografias são francamente boas, mostram pessoas diferentemente normais, diferentemente felizes ou infelizes, diferentemente bonitas. As pessoas que passam, muitos por cento turistas, vêm também de tudo o que é sítio. Mas não se vêem. Numas duas ou três horas que lá passei, em três dias diferentes, só uma vez vi alguém a visitar a exposição, detendo-se alguns segundos perante cada imagem. Uma família de quatro pessoas. Vi algumas poucas pessoas deterem-se em frente a uma ou outra imagem. A maior parte ignorava totalmente a exposição.
De certeza muitas dessas pessoas foram aos museus, talvez até a galerias ver fotografias muito piores. Não tenho grande explicação para isto. Suponho que seja uma questão de estatuto. Essas pessoas estão na cidade na sua qualidade de turistas. Portanto turistam. Vêem o que os guias, de carne e osso ou de papel, lhes dizem para ver. Provavelmente na terra deles passeiam, e vêem o que há para ver.


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